Conhece uma história assim? Qualquer semelhança...

02/03/2021 09:06

por: Adriano Almeida Lopes

 

- Tem o produto?

- Sim.

- Preciso dele. Como eu pago e pego com você?

- Em dinheiro. Não posso vender no cartão, porque deixa rastro. Pega direto comigo.

- Certo. Vou levar dinheiro. Onde nos encontramos?

- Naquela esquina da rua "X", com a rua "Y". Cuidado: se a polícia vir eu te vendendo isso, estaremos com sérios problemas.

- Entendi. Então coloca o produto numa sacola, disfarçado. Esta é a minha primeira vez. Estou nervoso. Nunca tive problemas com as autoridades.

- Calma. Se você é dependente, não tem outra opção. E eu tenho o produto e preciso vender.

- Está bem. Mas lá, me entrega isso rápido. Vai que, na hora, passa a polícia!

- Certo. Já leva o dinheiro trocado. O horário da entrega é o que foi informado a você pelo amigo que me indicou.

- Combinado.

Não se trata de uma conversa entre um usuário de drogas e um traficante. O adquirente do produto é um prestador de serviços, com três filhos, sem reserva financeira e que não tem outra opção, senão prestar serviços para alimentar a sua família. Ele precisa de materiais para trabalhar. Mas, na cidade onde ele mora, o comércio presencial de produtos lícitos está proibido. E no caso dos produtos que necessita, não há "delivery". Sem alternativa, ele age como um infrator. Para exercer atividade laboral, constitucionalmente garantida, se esgueira pela esquina, recebe o produto que usará na prestação de seu serviço e, disfarçadamente, entrega o dinheiro ao vendedor (que igualmente se comporta como infrator). Com o coração acelerado e mãos trêmulas, ele entra no seu velho carro e arranca. Sente alívio por "não ter sido pego". Ele tenta racionalizar, usa a lógica, rememora os números terríveis da tragédia que a sua cidade enfrenta. Entretanto, por mais que sopese todos os elementos que lhe estão disponíveis, ele volve numa única imagem: a de seus filhos, que lhe aguardam, inocentes, chegar com o alimento para aquele dia.