A necessidade de um criador – meu caminho e missão sobre o tema teológico.

27/01/2021 09:49

A necessidade de um criador – meu caminho e missão sobre o tema teológico.

Paulo Roberto Vieira

 

Eu, como a grande maioria dos brasileiros (que talvez te inclua), cresci doutrinado como cristão, acreditando no deus cristão, na sua capacidade de punição e benção, e na vida após morte. A família de minha mãe é extremamente católica, todos fiéis e temerários a deus. A do meu pai, extremamente protestante - meu avó foi o fundador e construtor da igreja protestante de Araguari, sendo esta igreja, a mais central da cidade; dois de meus tios, irmãos de meu pai, eram pastores e por ai vai... Fui, porém, rompendo aos poucos com a forte doutrinação e há mais de 20 anos atrás, quando já não tinha mais conexão com religião, passei a buscar algo que me ajudasse a entender e conectar com um deus, pois ainda acreditava na sua existência. Flertei um tempo com gnosticismo - por sinal, para quem se interessa sobre o tema, sugiro um livro muito bom "O deus exilado" de Marilia Fiorillo, que foca nos evangelhos apócrifos que foram excluídos da Bíblia. Estes textos foram escondidos pelos gnósticos da época para não serem eliminados e foram descobertos em 1945 em Nag Hammadi. Li bastante sobre várias religiões – conheço bem a Bíblia, estudei bastante sobre Hinduísmo, Budismo e li sobre vários outros conceitos. No final acabei me afastando da idéia de um criador intervencionista, i.e. a idéia de um deus (ou deuses) que às vezes se manifesta(m), faz(em) um milagre aqui, acolá, pune(m) outros ali, etc... Vencendo esta barreira, avancei para a visão de que ainda existia um deus, mas não necessitava mais de religião e que este não intervinha - apenas estava lá e eu teria que achar um jeito de me conectar com ele. Continuei buscando mais e acabei perdendo esta necessidade de conexão e passei a ter dúvidas da sua existência – neste pointo, minha visão era de que deus poderia ou não existir, eu não tinha como dizer se sim ou se não, i.e., virei agnóstico como muitos. Um pouco mais de estudo e auto-conhecimento me levou onde estou hoje, que se convenciona chamar de “ateu”.

 

O que faz ou sempre fez o homem criar deus(es)? A resposta é razoavelmente simples - essencialmente medo e ignorância. Isto é cientificamente comprovado e documentado desde 4.000 anos atrás, quando as primeiras descrições desta invenção humana surgiram. Inicialmente fenômenos naturais eram considerados manifestação divina, como chuva, raio, terremoto, maremoto, etc. i.e., ignorância traduzida em deus(es). Meio que simultaneamente, o outro motivador - medo, especificamente o medo da morte - também reforçou a necessidade de criação de deus(es). Do medo da morte, vieram a visão de paraíso, vida após morte, ressurreição, reencarnação, etc. No início eram visões bem tribais (algumas existentes até hoje) e politeístas, mas com o tempo, estas descrições divinas foram se sofisticando e, em muitos casos, dando origem a visões monoteístas que são as que mais predominam hoje. Em suma, a agonia por não termos uma resposta (de onde vim) e o medo da morte é o que cria deus(es).

A discussão de "deus(es)" pode ser distinguida sobre um aspecto “deísta” que é uma discussão mais científica/filosófica sobre a existência ou não de uma entidade criadora do universo e a visão “teísta” que trata da discussão teológica/religiosa de entidade(es) intervencionista(s), que realizam milagres, salvam uns, punem outros, demandam subserviência, promessas de vida após morte, etc.

 

Na discussão deísta, há vários pensadores e cientistas que não acreditam num deus intervencionista e não tem ligação religiosa, mas suportam fortemente a idéia de uma entidade criadora, para saciar a discussão sobre a origem do universo. Conceitos como o do filósofo Barch Spinoza que define deus como uma substância auto-existente são, para mim, uma forma "suave" de falar que deus não existe, mas que existe, i.e., uma embromação filosófica sofisticada. No final, um grande esforço (para mim inútil) para tentar nos confortar com a questão que não temos como responder e, assim, "ficar de boa" com a maioria da humanidade que precisa se apegar ao conceito de um "criador". Esta é uma discussão que até entendo, acho tolerável e não me causa incômodo, pois é filosófica e não tem “efeitos colaterais” danosos como tem a questão teísta.

Quanto à questão teísta, i.e., relativa à existência de um deus (ou deuses) intervencionista(s) para o(s) qual(is) temos que orar, dedicar, planejar e entregar nossa vida, esta eu não tenho como aceitar passivamente. Me sinto no dever "moral" de me posicionar quando a situação me pressiona para tanto - normalmente jamais início uma discussão ou argumentação, mas se questionado for, com certeza defenderei minha visão e tentarei influenciar os participantes!

 

Bem, 2 anos atrás passei quase um mês na Islândia, na época da Copa do Mundo, porque aqui nos EUA, onde moro, futebol é desprezado e lá na Islândia, a galera estava louca por que tinham se qualificado pela primeira vez! Sempre achei que seria um país interessante para conhecer e juntei o útil ao agradável. Antes de ir para lá dei uma pesquisada e uma das coisas que ressaltam lá (dentre várias coisas únicas) é que é o país com maior número proporcional de ateus (ateus mesmo) do planeta!. Fiquei preocupado, pois religião é algo que “todos” entendem como necessário para dar direção moral para uma sociedade, e indo para um país de “bárbaros ateus”, pensei que seria extremamente perigoso. Imaginei que lá na Islândia, provavelmente seria extremamente policiado, prisões para todo lado, altos índices de criminalidade, etc. Não é que para minha surpresa, quando cheguei lá na capital (Reykjavik) não via nada de polícia em lugar nenhum - nas raríssimas vezes que vi algum policial, o cabra nem arma tinha - era só uma cacetetezinho de borracha vagabundo. Fiquei estupefato e, pesquisando, descobri que é o país com menores índices de violência, menores índices de encarceramento, menores desigualdades sociais do planeta!!... Pesquisando mais, você descobre que o padrão se repete, i.e., quanto mais ateu um país é, melhores são estes índices!!... Como é que pode uma sociedade sem um bastião moral religioso ser tão melhor que sociedades com altos graus de religiosidade?!?!.... Tem algo de errado nisto, não tem não?!?!...

 

Bem, o fato é que crescemos com esta falácia absurda de que uma sociedade necessita de religião, de crer em deus(es), para ter uma referência moral. Isto é um absurdo gigantesco - a condição moral é da natureza humana, está dentro de nós - por isto que uma pessoa é boa, não é a religião que faz uma pessoa, e sim seu auto-conhecimento, a sua natureza!!... As religiões sequestram na cara dura esta nossa condição intrínseca do ser humano como sendo delas e fazem a promoção. Eu fico abismado como esta falácia consegue se propagar!. Me digam qual é a ação de bondade, de humanidade que um religioso consegue fazer que um ateu não consegue. Agora eu consigo (bem como você) citar inúmeros atos cruéis que religiosos realizaram (e ainda realizam) em nome de sua religião que um ateu jamais conseguiria! Religião, como sabemos, é a mãe dos maiores conflitos, atos de crueldade e desavenças na história da humanidade, infelizmente - isto é fato! Além disto, há outros fatores que considero gravíssimos como o "perdão divino", que é fortemente explorado em religiões cristãs. O cabra pode ser um filho da puta, bandido, mau-caráter, assassino, mas se em algum momento da vida, declarar arrependimento, chorar, relatar que se encontrou com deus, tá tudo bem! Todos choram, se confraternizam e o cara vira santo, com passagem VIP para o céu - Amém!. E completando a cereja do bolo das incongruências religiosas, há os que abusam da inocência do povo, como os Edir Macedo e milhares de outros pilantras em praticamente todas religiões. Não eximo desta lista a própria igreja católica, que ao longo de séculos acumulou riquezas enormes, com proliferação de pedófilos, doentes sexuais e alguns malandros que lá entraram para usufruir da vida de luxo proporcionada para a galera de alto escalão - claro, há exceções e gente de bem, especialmente na base, mas lá em cima é, em grande parte, podridão, como em todas grandes organizações humanas. 

 

Então, novamente, não tenho como fugir desta missão - é difícil, faz com que muitos me vejam de cara torta - aquele estranho, infiel, herético sem moral, mas uma vez que abri a porta não tenho como fechá-la. Sim, sou sempre muito afirmativo sobre a minha condição de ateísmo e quero, sim, influenciar (quando me pedem/permitem) com a minha visão. Quando definitivamente rompi com uma visão de divindade e do medo da morte, religiosos algumas vezes me perguntam: "então se você não crê em deus, no que você acredita e qual o significado da vida?". A minha resposta é razoavelmente simples, eu acho - eu acredito na vida em torno de mim e o significado da minha vida é tratar toda forma de vida com respeito e amor - temos que aprender, compartilhar, cuidar e colaborar enquanto estamos aqui. Me afastar desta visão de deus(es) fez com que a distração e bloqueios por ela impostos se dissipasse - a vida se tornou mais significativa, não tenho discrimações, não há medos desnecessários, há muito mais sentido na vida. Gostaria muito que mais pessoas pudessem seguir este caminho, que se livrassem de distrações religiosas muitas vezes negativas ou no mínimo inócuas, que as fazem desperdiçar grande parte, senão, toda vida, ou pior ainda, ir para caminhos muito tristes impostos para a própria pessoa ou para outros, além de empoderar os que abusam da ingenuidade de seus fiéis. Amém!